"Era uma vezUm sábio chinêsQue um dia sonhouQue era uma borboletaVoando nos camposPousando nas floresVivendo assimUm lindo sonho...Até que um dia acordouE pro resto da vidaUma dúvidaLhe acompanhou...Se ele eraUm sábio chinêsQue sonhouQue era uma borboletaOu se era uma borboletasonhando que eraUm sábio chinês."Esse homem teve um lindo sonho, quase o contrário de Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, de Franz Kafka.
Gregor Samsa acorda um dia transformado em um inseto. Mas sua metamorfose talvez tenha começado muito antes. Pressionado por todos e por todos os lados, pelos desafios e exigências da vida, pouco a pouco vai se diminuindo, perdendo espaço, liberdade e, talvez, até a própria condição humana.
Fechado num quarto, exila-se de tudo e de todos. Afastado do mundo e das pessoas, vai se tornando cada vez mais estranho aos outros — e talvez também a si mesmo. Pouco a pouco, transforma-se num inseto horripilante.
Já o sábio chinês vive uma metamorfose de outra natureza. Ele sonha que é uma borboleta, livre, voando pelos campos, pousando nas flores. Quando acorda, porém, a experiência do sonho lhe deixa uma dúvida que o acompanhará pelo resto da vida: afinal, quem era ele? Um sábio que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando ser um sábio?
Dois homens. Duas metamorfoses. Dois modos muito diferentes de enxergar o mundo e de sentir a vida.
Em Gregor Samsa, a metamorfose parece representar um encolhimento do ser. É como se a vida, quando se torna pesada demais, pudesse nos fechar dentro de nós mesmos, até que já não nos reconheçamos.
No sonho do sábio, porém, a metamorfose abre uma porta. Ela não diminui: amplia. Faz surgir uma dúvida, mas uma dúvida bonita — dessas que talvez não precisem de resposta. Afinal, quem somos nós? Aquilo que acreditamos ser quando estamos acordados? Aquilo que sonhamos? Ou algo muito maior e mais misterioso, sempre em transformação?
Talvez seja justamente essa a grande diferença entre os dois: Gregor se transforma e perde a liberdade; o sábio se transforma e descobre a possibilidade de ser outra coisa.
E talvez nós também sejamos assim: ora Samsa, quando a vida nos aperta e nos fechamos; ora borboleta, quando conseguimos sair de nós mesmos, ganhar asas e olhar o mundo de outro modo.
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Quem sou eu
- Maria Aparecida Roque-Kottkamp
- Nascida há mais de meio século, entre uma floresta e uma montanha. Percorri caminhos descalça, entre cobras, formigas, vacas e tantos outros bichos. Depois, fui uma aluna aplicada da escola da vida em São Paulo, essa floresta metropolitana, onde quase esqueci minhas origens campesinas. Hoje, vivo na Alemanha, entre uma floresta e um canal. Na primavera, as margens se enchem de margaridas, mas sem cobras. Aqui, quase consigo reviver um pouco de quem um dia fui. Às vezes, sinto falta do sol, mas a neve também tem sua beleza. Estou aprendendo a apreciar tudo o que a vida me oferece. Adoro conversar sobre qualquer assunto que seja agradável, que traga conhecimento e aqueça a alma.
18.12.10
Meu pensar: uma metamorfose
Maria A. Roque-Kottkamp
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