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Nascida há mais de meio século, entre uma floresta e uma montanha. Percorri caminhos descalça, entre cobras, formigas, vacas e tantos outros bichos. Depois, fui uma aluna aplicada da escola da vida em São Paulo, essa floresta metropolitana, onde quase esqueci minhas origens campesinas. Hoje, vivo na Alemanha, entre uma floresta e um canal. Na primavera, as margens se enchem de margaridas, mas sem cobras. Aqui, quase consigo reviver um pouco de quem um dia fui. Às vezes, sinto falta do sol, mas a neve também tem sua beleza. Estou aprendendo a apreciar tudo o que a vida me oferece. Adoro conversar sobre qualquer assunto que seja agradável, que traga conhecimento e aqueça a alma.

26.5.11

Mulher, essa incompreendida

 

Desde Eva, parece que a mulher carrega uma curiosa condenação: a de ser responsabilizada por coisas que os homens não conseguem — ou não querem — compreender.

Ao longo da história, os homens falaram muito sobre as mulheres. Definiram-nas, explicaram-nas, julgaram-nas, idealizaram-nas e, não raramente, fizeram delas motivo de piada. Discutiam-se política, filosofia, economia e os grandes assuntos de seu tempo — assuntos importantes, haja vista - e piadas de salão, cujo objeto de riso era a mulher. 

Sobre as mulheres, porém, tinham pouco a dizer. Era uma desconhecida. 

E disseram de tudo sobre ela: que falavam demais, que eram perigosas, frágeis, tortas, tentadoras, difíceis de compreender, capazes de destruir paraísos e até de constituir um “erro” divino.

Algumas dessas frases vieram de homens brilhantes que revelam como a maneira como a maioria desses homens de determinadas épocas as enxergavam.

E é justamente por isso que vale a pena revisitá-las.

Não para fazer um julgamento retroativo de todos os seus autores, nem para transformar cada frase em prova definitiva do pensamento de uma época. Mas para observar, com alguma ironia e uma boa dose de espírito crítico, como a mulher foi descrita.   

Acompanhe algumas dessas pérolas.

“Certas mulheres podem falar horas a fio sobre qualquer assunto. A minha mulher nem precisa de assunto.”
— Sam Levenson

Quando eram eles a falar sem parar, chamava-se debate, análise, estratégia, filosofia ou política. Quando era uma mulher, bastava dizer que ela “falava demais”.Talvez o problema nunca tenha sido a quantidade de palavras, mas quem tinha o direito de pronunciá-las.  

“Presume-se que a mulher deve esperar, imóvel, até ser cortejada. Mais ou menos como a aranha espera a mosca.”
— George Bernard Shaw

Ainda bem que muita coisa mudou — embora ainda haja um longo caminho pela frente.

A mulher já não precisa permanecer imóvel, à espera de que alguém a escolha, como se estivesse aguardando o caçador aparecer. Em muitos países, conquistou-se o direito de fazer suas próprias escolhas: escolher se quer, com quem quer e, sobretudo, não querer.

E talvez uma das maiores conquistas seja justamente esta: aprender — e fazer valer — o direito de dizer NÃO.

Não quando não quer.
Não quando não gosta.
Não quando se sente assediada.
Não quando simplesmente não está interessada.

Porque liberdade não é apenas poder escolher. É também poder recusar.

“Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é como a mulher; e, para dominá-la, é necessário bater nela e contrariá-la.”
— Nicolau Maquiavel

Sabemos que a violência contra a mulher continua sendo uma realidade brutal em muitas sociedades e que o feminicídio permanece como uma de suas expressões mais extremas. 

Nesta frase, Maquiavel recorre a uma metáfora bastante reveladora de seu tempo: compara a sorte — a fortuna — a uma mulher que, para ser dominada, deveria ser “batida” e contrariada. A violência aparece, portanto, não apenas como uma possibilidade, mas como um instrumento legítimo de domínio. É uma frase antiga, mas a ideia que ela carrega está longe de ser apenas histórica. Durante séculos, a mulher foi colocada no lugar de algo que deveria ser conquistado, submetido e controlado. E talvez seja justamente por isso que certas frases dos grandes autores mereçam ser revisitadas: não para apagar seus autores da história, mas para enxergar, nas palavras que atravessaram os séculos, as ideias que também ajudaram a construir a sociedade em que vivemos.

“É mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela.”
— George, Lord Byron

Pois é...

Talvez seja mesmo mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela. Afinal, morrer por uma mulher permite transformá-la em musa, paixão, mistério ou tragédia. Conviver com ela exige algo bem mais difícil: reconhecê-la como pessoa.

Uma pessoa que pensa, discorda, muda de ideia, tem desejos próprios, defeitos, qualidades e, sobretudo, vontades.

Talvez o problema nunca tenha sido compreender as mulheres. Talvez tenha sido aceitar que elas não existem para caber nas fantasias que os homens criaram sobre elas.

“A mulher será sempre o perigo de todos os paraísos.”
— Paul Claudel

Talvez essa ideia de que a mulher representa um perigo seja muito mais antiga do que imaginamos.

Em algumas partes do mundo, essa visão chega ao extremo de ainda obrigar mulheres a esconder o rosto e o corpo atrás de panos, como se a sua simples existência fosse, por si só, uma ameaça. 

Desde Eva, ela carrega simbolicamente a culpa pela perda do Paraíso. Bastou uma mulher ousar romper com a monotonia, experimentar o desconhecido e tomar uma decisão por conta própria para que sua curiosidade se transformasse, por milênios, em pecado.

Essa figura estranha, como disse Rita Lee, "que todo mês sangra", quando ousa desejar, é tentadora; quando ousa dizer não, é difícil.

E quando ousa ser livre! Então, é ainda mais perigosa. É o diabo encarnado!

O verdadeiro perigo está na maneira persistente e equivocada como ela é vista — uma visão que, há séculos, tem servido para justificar a violência sobre ela mundo afora.

  “A mulher foi o segundo erro de Deus.”

— Friedrich Nietzsche

Nem esse conseguiu entender as mulheres. Também, ocupou-se tanto em viajar pelos próprios pensamentos que talvez não tenha lhe sobrado muito tempo para conhecê-las melhor. Assim, acabou sendo mais fácil reduzi-las a uma pequena — e infeliz — frase.

Alguém sabe qual teria sido o primeiro erro de Deus?

Será que foi o homem?

E, para finalizar nossa pequena viagem no tempo, na tentativa de sondar algumas das falas de pensadores sobre as mulheres, registradas em suas obras, vamos à última frase: 

“Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham, pois, paciência com as mulheres.”
— Maomé

Essa é quase um elogio, se comparada às anteriores. 

Talvez, entre tantas frases que tentaram explicar, diminuir ou ridicularizar a mulher, esta tenha ao menos uma pequena dose de bom senso: aceitem-nas como são e tenham paciência.

Convenhamos: depois de tantos séculos tentando entendê-las, já seria um bom começo.

Talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em compreender que uma mulher não é um osso torto, nem algo que precise ser moldado à vontade de alguém.

Para nossa conclusão, vai a pergunta: Afinal, quem é essa mulher?

Aqui, expusemos apenas algumas frases de pensadores do passado. Mas, se perscrutarmos os escritos e as falas de filósofos, escritores, pensadores e homens comuns — frequentadores assíduos dos salões de outrora — em busca do que pensavam sobre as mulheres, talvez a conclusão mais óbvia seja também a mais simples: eles falaram muito sobre elas, mas nem sempre falaram com elas.

Transformaram-nas em musa, pecado, tentação, perigo, mistério, prêmio, desgraça, costela torta e até erro de Deus. Criaram explicações para seus comportamentos, justificativas para seus desejos e regras para seus corpos. Disseram como deveriam falar, amar, vestir-se, comportar-se e até o quanto e quando deveriam falar.

Mas quase sempre esqueceram de uma coisa elementar: perguntar a elas quem eram.

Talvez a mulher não seja tão incompreendida porque seja difícil de compreender. Talvez tenha sido incompreendida porque, durante muito tempo, não lhe deram espaço suficiente para contar a própria história.

E é justamente aí que esta pequena viagem pelas frases de tantos homens termina.

O intuito dessa pequena investigação não é o de condenar todos os homens, nem para negar a importância de grandes autores por causa de uma frase infeliz. Mas para lembrar que inteligência, genialidade e reconhecimento histórico não tornam ninguém imune aos preconceitos de seu próprio tempo.

As frases permanecem. E nós podemos visitá-las.

Podemos rir de algumas, indignar-nos com outras, questioná-las e, sobretudo, perceber o quanto uma sociedade revela de si mesma quando fala sobre aqueles que colocou em posição de inferioridade.

Durante séculos, disseram às mulheres quem elas deveriam ser.

Talvez tenha chegado a hora de simplesmente deixá-las ser.

Nem musa. Nem pecado. Nem perigo. Nem costela. Nem erro.

Simplesmente Mulher.

Texto escrito em 2011 e revisado em 11.08.2026

   
 Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo