Desde Eva, parece que a mulher carrega uma curiosa condenação: a de ser responsabilizada por coisas que os homens não conseguem — ou não querem — compreender.
Ao longo da história, os homens falaram muito sobre as mulheres. Definiram-nas, explicaram-nas, julgaram-nas, idealizaram-nas e, não raramente, fizeram delas motivo de piada. Discutiam-se política, filosofia, economia e os grandes assuntos de seu tempo — assuntos importantes, haja vista - e piadas de salão, cujo objeto de riso era a mulher.
Sobre as mulheres, porém, tinham pouco a dizer. Era uma desconhecida.
E disseram de tudo sobre ela: que falavam demais, que eram perigosas, frágeis, tortas, tentadoras, difíceis de compreender, capazes de destruir paraísos e até de constituir um “erro” divino.
Algumas dessas frases vieram de homens brilhantes que revelam como a maneira como a maioria desses homens de determinadas épocas as enxergavam.
E é justamente por isso que vale a pena revisitá-las.
Não para fazer um julgamento retroativo de todos os seus autores, nem para transformar cada frase em prova definitiva do pensamento de uma época. Mas para observar, com alguma ironia e uma boa dose de espírito crítico, como a mulher foi descrita.
Acompanhe algumas dessas pérolas.
“Certas mulheres podem falar horas a fio sobre qualquer assunto. A minha mulher nem precisa de assunto.”
— Sam Levenson
Quando eram eles a falar sem parar, chamava-se debate, análise, estratégia, filosofia ou política. Quando era uma mulher, bastava dizer que ela “falava demais”.Talvez o problema nunca tenha sido a quantidade de palavras, mas quem tinha o direito de pronunciá-las.
“Presume-se que a mulher deve esperar, imóvel, até ser cortejada. Mais ou menos como a aranha espera a mosca.”
— George Bernard Shaw
Ainda bem que muita coisa mudou — embora ainda haja um longo caminho pela frente.
A mulher já não precisa permanecer imóvel, à espera de que alguém a escolha, como se estivesse aguardando o caçador aparecer. Em muitos países, conquistou-se o direito de fazer suas próprias escolhas: escolher se quer, com quem quer e, sobretudo, não querer.
E talvez uma das maiores conquistas seja justamente esta: aprender — e fazer valer — o direito de dizer NÃO.
Não quando não quer.
Não quando não gosta.
Não quando se sente assediada.
Não quando simplesmente não está interessada.
Porque liberdade não é apenas poder escolher. É também poder recusar.
“Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é como a mulher; e, para dominá-la, é necessário bater nela e contrariá-la.”
— Nicolau Maquiavel
Sabemos que a violência contra a mulher continua sendo uma realidade brutal em muitas sociedades e que o feminicídio permanece como uma de suas expressões mais extremas.
Nesta frase, Maquiavel recorre a uma metáfora bastante reveladora de seu tempo: compara a sorte — a fortuna — a uma mulher que, para ser dominada, deveria ser “batida” e contrariada. A violência aparece, portanto, não apenas como uma possibilidade, mas como um instrumento legítimo de domínio. É uma frase antiga, mas a ideia que ela carrega está longe de ser apenas histórica. Durante séculos, a mulher foi colocada no lugar de algo que deveria ser conquistado, submetido e controlado. E talvez seja justamente por isso que certas frases dos grandes autores mereçam ser revisitadas: não para apagar seus autores da história, mas para enxergar, nas palavras que atravessaram os séculos, as ideias que também ajudaram a construir a sociedade em que vivemos.
“É mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela.”
— George, Lord Byron
Pois é...
Talvez seja mesmo mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela. Afinal, morrer por uma mulher permite transformá-la em musa, paixão, mistério ou tragédia. Conviver com ela exige algo bem mais difícil: reconhecê-la como pessoa.
Uma pessoa que pensa, discorda, muda de ideia, tem desejos próprios, defeitos, qualidades e, sobretudo, vontades.
Talvez o problema nunca tenha sido compreender as mulheres. Talvez tenha sido aceitar que elas não existem para caber nas fantasias que os homens criaram sobre elas.
“A mulher será sempre o perigo de todos os paraísos.”
— Paul Claudel
Talvez essa ideia de que a mulher representa um perigo seja muito mais antiga do que imaginamos.
Em algumas partes do mundo, essa visão chega ao extremo de ainda obrigar mulheres a esconder o rosto e o corpo atrás de panos, como se a sua simples existência fosse, por si só, uma ameaça.
Desde Eva, ela carrega simbolicamente a culpa pela perda do Paraíso. Bastou uma mulher ousar romper com a monotonia, experimentar o desconhecido e tomar uma decisão por conta própria para que sua curiosidade se transformasse, por milênios, em pecado.
Essa figura estranha, como disse Rita Lee, "que todo mês sangra", quando ousa desejar, é tentadora; quando ousa dizer não, é difícil.
E quando ousa ser livre! Então, é ainda mais perigosa. É o diabo encarnado!
O verdadeiro perigo está na maneira persistente e equivocada como ela é vista — uma visão que, há séculos, tem servido para justificar a violência sobre ela mundo afora.
“A mulher foi o segundo erro de Deus.”
— Friedrich Nietzsche
Nem esse conseguiu entender as mulheres. Também, ocupou-se tanto em viajar pelos próprios pensamentos que talvez não tenha lhe sobrado muito tempo para conhecê-las melhor. Assim, acabou sendo mais fácil reduzi-las a uma pequena — e infeliz — frase.
Alguém sabe qual teria sido o primeiro erro de Deus?
Será que foi o homem?
E, para finalizar nossa pequena viagem no tempo, na tentativa de sondar algumas das falas de pensadores sobre as mulheres, registradas em suas obras, vamos à última frase:
“Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham, pois, paciência com as mulheres.”
— Maomé
Essa é quase um elogio, se comparada às anteriores.
Talvez, entre tantas frases que tentaram explicar, diminuir ou ridicularizar a mulher, esta tenha ao menos uma pequena dose de bom senso: aceitem-nas como são e tenham paciência.
Convenhamos: depois de tantos séculos tentando entendê-las, já seria um bom começo.
Talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em compreender que uma mulher não é um osso torto, nem algo que precise ser moldado à vontade de alguém.
Para nossa conclusão, vai a pergunta: Afinal, quem é essa mulher?
Aqui, expusemos apenas algumas frases de pensadores do passado. Mas, se perscrutarmos os escritos e as falas de filósofos, escritores, pensadores e homens comuns — frequentadores assíduos dos salões de outrora — em busca do que pensavam sobre as mulheres, talvez a conclusão mais óbvia seja também a mais simples: eles falaram muito sobre elas, mas nem sempre falaram com elas.
Transformaram-nas em musa, pecado, tentação, perigo, mistério, prêmio, desgraça, costela torta e até erro de Deus. Criaram explicações para seus comportamentos, justificativas para seus desejos e regras para seus corpos. Disseram como deveriam falar, amar, vestir-se, comportar-se e até o quanto e quando deveriam falar.
Mas quase sempre esqueceram de uma coisa elementar: perguntar a elas quem eram.
Talvez a mulher não seja tão incompreendida porque seja difícil de compreender. Talvez tenha sido incompreendida porque, durante muito tempo, não lhe deram espaço suficiente para contar a própria história.
E é justamente aí que esta pequena viagem pelas frases de tantos homens termina.
O intuito dessa pequena investigação não é o de condenar todos os homens, nem para negar a importância de grandes autores por causa de uma frase infeliz. Mas para lembrar que inteligência, genialidade e reconhecimento histórico não tornam ninguém imune aos preconceitos de seu próprio tempo.
As frases permanecem. E nós podemos visitá-las.
Podemos rir de algumas, indignar-nos com outras, questioná-las e, sobretudo, perceber o quanto uma sociedade revela de si mesma quando fala sobre aqueles que colocou em posição de inferioridade.
Durante séculos, disseram às mulheres quem elas deveriam ser.
Talvez tenha chegado a hora de simplesmente deixá-las ser.
Nem musa. Nem pecado. Nem perigo. Nem costela. Nem erro.
Simplesmente Mulher.
Maria Aparecida Roque-Kottkamp
Texto escrito em 2011 e revisado em 11.08.2026
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