A Criatura Humana e seus Atos


A CRIATURA HUMANA E SEUS ATOS

O ser humano acha que só porque pode pensar é mais importante do que qualquer outro animal. Ele se esquece de que, principalmente porque pode pensar, é também mais responsável por tudo o que faz.

Desenvolvemos o pensamento e conquistamos o livre-arbítrio; podemos escolher os caminhos que queremos seguir, construímos ferramentas e, com elas, fazemos nossas casas, nosso mundo, escrevemos leis que nos mostram alguns limites e seguimos uma certa ética.

Entretanto, ainda estamos vulneráveis perante muitas catástrofes naturais.

Assim como os dinossauros, também podemos ser varridos do planeta por elas.

Contra tsunamis e terremotos, o homem nada pode fazer. Não adianta gritar nem rezar para que os deuses nos socorram; eles não vão fazer nada por nós. Vemo-nos, então, sozinhos, como o homem primitivo o fora, ou como qualquer outro animalzinho desprotegido!

Mas esse homem de quem falo, esse sábio privilegiado da natureza, cocriador, por sua vez, também foi o causador de catástrofes ainda tão ou mais devastadoras do que os tsunamis e terremotos. Esse homem vem praticando atrocidades contra seus semelhantes e contra a natureza há milênios, mundo afora. Seus feitos interferiram no clima, arrasaram matas, alteraram o solo e aniquilaram pessoas.

E, para piorar ainda mais a situação, como líder político, a maioria foi — e é — inescrupulosa, egoísta, imediatista e mal-intencionada. Alguns desses homens vêm decidindo e conduzindo o nosso destino ao longo da história da humanidade.

Por tudo o que já sabemos, pergunto: que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos? Vamos continuar com a nossa vidinha, pensando que ainda não é conosco, que nunca seremos afetados, e deixar que certos tipos continuem a conduzir nossos destinos para o abismo?

Há muito se sabe que são grandes as possibilidades de haver uma catástrofe nuclear por erro, falha técnica — que já ocorreu na Rússia e no Japão —, por ataques terroristas ou por ato de qualquer louco. E, mesmo assim, agimos minimamente para banir as usinas do planeta.

Desde o início de suas construções, discutem-se, nos fóruns internacionais, os riscos que representam para a humanidade. Mas, mesmo assim, não se consegue fazer com que parem definitivamente. E o programa para a construção de novas unidades continua.

Os representantes das nações líderes, com sua parola, conseguem sempre convencer os que votam as leis, apoiados na necessidade que essa fonte de energia representa para a população desses países, para manter patamares econômicos e continuar crescendo. Somos, então, mais uma vez, obrigados a engolir isto e vamos levando nossa vida com a nítida sensação de que estamos caminhando sobre uma linha tênue que, a todo momento, pode ceder.

Já ciente desses perigos, esse ser especial chamado homem, com inteligência superior à de outros animais, insiste na prática de seus absurdos, fazendo do mundo seu laboratório particular.

Será que ele ainda merece estar no topo, ocupando o lugar de ser especial da natureza só porque conseguiu se apoiar nas duas pernas, descobriu o fogo, desenvolveu o pensamento contínuo, construiu a Torre de Babel, as Muralhas da China, aviões, foguetes, computadores...?

Precisamos avaliar melhor essa posição; encarar a nossa pequenez diante de toda a natureza e do infinito que nos cercam antes de nos colocarmos acima de outros seres só porque pensamos.

Talvez devêssemos buscar em nossos arquivos biológicos nossa natureza animal, tão esquecida; sermos menos humanos; conectarmo-nos com a natureza à nossa volta, tão negligenciada e desrespeitada. Reconhecer nossa limitação e tentar avançar com menos velocidade e sem arrogância no desconhecido. Talvez isso possa nos salvar de nós mesmos.

Será que ainda teremos esse tempo?

Postado em 24.03.2011 / Corrigido e atualizado em 24.08.2026

    Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 


Comentários

  1. Maria, acho que todos deveriam fazer um levante contra as usinas nucleares. Quando vejo o que o Japoneses estao sofrendo, cresce minha preocupacao com o futuro que aguarda nossos filhos. tenho 2. Triste. Um abraco. Meu nome é Nair. Vou entrar como anonimo pois nao tenho e-mail no google e nem no yahoo.

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