Abril, abril...
Estamos começando o mês de abril.
Ou será o mês de abril que está começando?
Estamos começando em abril. Começando... Começando o quê?
Por minha vez, estou começando a escrever este texto, que, por acaso, está acontecendo no mês de abril.
„April, April, der macht, was er will.“
Dizem os alemães. Traduzindo mais ou menos: em abril pode nevar, chover, fazer sol, ventar... O mês de abril faz o que quer. Tudo pode acontecer neste mês.
Mas o que poderá nos proporcionar um mês?
Este mês?
Na verdade, um mês é só uma palavra.
Se eu ler “mês” ao contrário, vira “sêm”.
Abril, escrito ao contrário, vira “lirba”.
“Sêm” e “lirba” não significam nada. Procurei no dicionário e não encontrei nada — a não ser nomes de empresas e de pessoas que, para mim, não dizem absolutamente nada.
Veja só: quando escrevo uma palavra ao contrário, posso dessignificá-la. Posso acabar com a sua graça. Ela passa a ser apenas um amontoado de letrinhas deficientes. Perde a voz, perde o sentido.
É o que acontece comigo diante de “sêm” e “lirba”: sem sentido.
Mas, se continuarmos brincando com as letras — isso se chama anagrama —, “abril” pode também virar “lirba”.
Não quero, porém, seguir nessa direção.
“Lirba” lembra “libra”, que lembra balança, que lembra justiça, que lembra dinheiro, que lembra poder, submissão, corrupção, prostituição, caução...
Tudo com significados pesados demais e estressantes para mim.
Então, voltando ao tema em questão, pergunto:
O que reserva para nós este sêm? Este lirba?
Pensei bem sobre isso e tomei uma decisão:
Não quero ter parte alguma com os acontecimentos deste mês.
Vou desligar a TV, o rádio, o telefone e a internet.
Ih... esqueci-me do celular.
Vou desligá-lo também!
Não me telefonem!
Quero me alienar. Quero me esconder. Quero dormir por alguns dias. Dormir no sêm de lirba, no sêm da mentira, no sêm sem significado, e só acordar em “oiam”.
Repito:
Não quero ter nada a ver com este sêm.
Tsunamis, terremotos, vazamentos nucleares, terríveis assassinatos, novas guerras...
Que exploda o mundo!
Quero estar dormindo!
Quero dormir...
Dormir...
E dormir ainda mais.
Quero estar nem aí. Não quero ter ligação alguma com nada nem com alguém.
E o que acontecer com Ioko, Hans, Muhamad, John não vai me afetar. Onde quer que estejam, suas tristezas, seus dramas, suas tragédias e suas perdas não serão imagens nem vozes para mim.
Porque estarei dormindo.
Dormindo no sêm de lirba.
No sêm da mentira.
No sêm sem significado.
Vou desligar todos os fios. Vou me desconectar do mundo.
Vou fazer isso pela minha saúde mental.
O sêm de março é o culpado.
Foi turbulento, atrevido, estressou meio mundo e foi embora sem olhar para trás.
E eu também vou.
Se ele pode, eu também posso.
Então, vou terminar logo com este blá-blá-blá, que já está ficando chato, vou-me.
Só volto no sêm de maio.
Ops!
Oiam.
sêm das noivas.
Sêm da abolição.
Sêm do trabalho.
Sêm dos acontecimentos bons.
Agora, fui mesmo!
Bizzz...
Maria Aparecida Roque-Kottkamp
Divulgado em 05.04.2011
Revisado em 13.08.2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário