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Nascida há mais de meio século, entre uma floresta e uma montanha. Percorri caminhos descalça, entre cobras, formigas, vacas e tantos outros bichos. Depois, fui uma aluna aplicada da escola da vida em São Paulo, essa floresta metropolitana, onde quase esqueci minhas origens campesinas. Hoje, vivo na Alemanha, entre uma floresta e um canal. Na primavera, as margens se enchem de margaridas, mas sem cobras. Aqui, quase consigo reviver um pouco de quem um dia fui. Às vezes, sinto falta do sol, mas a neve também tem sua beleza. Estou aprendendo a apreciar tudo o que a vida me oferece. Adoro conversar sobre qualquer assunto que seja agradável, que traga conhecimento e aqueça a alma.

31.8.26

Desista!



Franz Kafka nasceu em Praga, em 3 de julho de 1883, cidade que, durante toda a vida do escritor, pertenceu ao Império Austro-Húngaro. Hoje, Praga é a capital da República Tcheca.

Filho de Hermann Kafka, um próspero comerciante judeu, e de Julie Löwy, Kafka cresceu em uma família de língua alemã, vivendo em uma cidade marcada pelo encontro de diferentes culturas. Desde cedo, esteve sob a influência de três importantes tradições: a judaica, a tcheca e a alemã. Essa convivência entre diferentes identidades culturais contribuiu para a complexidade e a riqueza de sua visão de mundo.

Formado em Direito pela Universidade de Praga, Kafka trabalhou durante grande parte da vida em uma companhia de seguros contra acidentes de trabalho. Embora exercesse sua profissão com competência, a literatura era sua grande paixão. Escrevia principalmente à noite, em meio às exigências do trabalho e às dificuldades de sua vida pessoal.

Kafka foi associado, juntamente com outros escritores de língua alemã que viviam em Praga, à chamada Escola de Praga. Mais do que um movimento literário rigidamente organizado, essa denominação reúne autores ligados por determinadas afinidades culturais, linguísticas e estéticas.
Sua obra apresenta uma combinação singular de lucidez, ironia, absurdo e inquietação metafísica. Em seus textos, situações aparentemente comuns podem transformar-se, de repente, em experiências estranhas, opressivas e incompreensíveis. Essa atmosfera, que mais tarde daria origem ao termo “kafkiano”, tornou-se uma das características mais marcantes de sua literatura.
O olhar de Kafka volta-se frequentemente para a fragilidade do indivíduo diante de forças que parecem impossíveis de compreender ou controlar. A burocracia, as instituições, a justiça, a culpa, o medo, a solidão e a sensação de impotência diante do mundo moderno são temas recorrentes em sua obra.
Em histórias como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, encontramos personagens confrontados com situações absurdas e sistemas impessoais que parecem funcionar segundo regras obscuras. O extraordinário em Kafka é que, mesmo diante do absurdo, seus personagens frequentemente tentam agir com uma espécie de lógica e normalidade — e é justamente dessa tensão que nasce grande parte da força de sua obra.

Kafka morreu em 3 de junho de 1924, aos 40 anos, vítima de tuberculose. Durante sua vida, publicou relativamente pouco e não chegou a conhecer a enorme repercussão que sua obra alcançaria posteriormente. Antes de morrer, pediu a seu amigo e escritor Max Brod que destruísse muitos de seus manuscritos. Felizmente para a literatura mundial, Brod não atendeu a esse pedido e publicou grande parte dos textos que Kafka deixou inéditos.

Hoje, Franz Kafka é considerado um dos maiores e mais influentes escritores da literatura mundial. Sua obra continua atual porque fala, de maneira profunda e perturbadora, sobre sentimentos que ainda reconhecemos: a solidão, a insegurança, o medo, a dificuldade de compreender o mundo e a luta do ser humano para encontrar algum sentido em meio ao absurdo.

A seguir, apresento um conto de Kafka intitulado “Gib's auf!” (“Desista!”), traduzido por mim. Boa leitura!

Desista!   
        
Era muito cedo pela manhã. As ruas estavam quietas e vazias. Eu caminhava em direção à estação quando comparei meu relógio com o relógio de uma torre e notei que era mais tarde do que eu supunha; tinha de me apressar.

O susto dessa descoberta deixou-me inseguro quanto ao caminho. Eu ainda não conhecia muito bem aquela cidade. Felizmente, havia um policial por perto. Corri até ele e perguntei-lhe, sem fôlego, a direção.

Ele sorriu e disse:
— De mim você quer saber o caminho?
— Sim — respondi —, pois eu mesmo não consigo encontrá-lo.
— Desista! Desista! — disse ele e afastou-se com um largo impulso, como as pessoas que querem ficar a sós com seu riso.

Esse conto de Kafka é assim mesmo, curtinho, entretanto podemos perceber nele algumas características da personalidade do Autor, suas dúvidas, inseguranças, medos e a terrível sensação de estar perdido e atrasado no tempo. 

O medo do homem moderno, talvez do homem de qualquer tempo, o medo da inadequação. A necessidade  de estar correndo para alguma coisa e ter a sensação de estar atrasado; o desespero em encontrar a direção e as respostas corretas para obter segurança. São respostas que o outro não nos pode dar.

Se Kafka tivesse encontrado Nietzsche  nesse  caminho, talvez tivesse obtido a resposta a que tanto procurava:

"Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar,
para atravessar o rio da vida
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números,
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Aonde leva? Não perguntes, segue-o

- Nietzsche - Em Assim Falou Zaratustra

Esse foi um  de Kafka. Vale a pena visitá-lo para sobre essa figura que se via como um estranho, um estrangeiro no mundo e no tempo em que viveu. Aventura garantida!

                                     Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 

31.08.2026 

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