Quem sou eu

Minha foto
Nascida há mais de meio século, entre uma floresta e uma montanha. Percorri caminhos descalça, entre cobras, formigas, vacas e tantos outros bichos. Depois, fui uma aluna aplicada da escola da vida em São Paulo, essa floresta metropolitana, onde quase esqueci minhas origens campesinas. Hoje, vivo na Alemanha, entre uma floresta e um canal. Na primavera, as margens se enchem de margaridas, mas sem cobras. Aqui, quase consigo reviver um pouco de quem um dia fui. Às vezes, sinto falta do sol, mas a neve também tem sua beleza. Estou aprendendo a apreciar tudo o que a vida me oferece. Adoro conversar sobre qualquer assunto que seja agradável, que traga conhecimento e aqueça a alma.

6.3.12

Nascer Mulher


Rilke 

Ao escolher nascer mulher, fiz um pacto com a Criação: um pacto de cooperação, cuja tarefa é contribuir em alto nível.

Sei que muitas fêmeas de outras espécies também cooperam.

A girafa, a macaca, a patinha da vizinha...

Aliás, sou muito próxima de quase todas as espécies, menos da das lesmas. Não gosto de lesmas. São rastejantes e nojentas, mas também cooperam à sua maneira.

Das cobras, porém, eu gosto. Embora também rastejantes, não são nojentas. Têm iniciativa, são ágeis e temidas.

É muito bacana ser mulher.

Sabe essa qualidade nossa de não diminuir, não abandonar, de proteger e acolher, que compõe a nossa natureza? Faz toda a diferença. É ela que traz mais saúde e humanidade ao mundo.

Há muitas que nem sabem da própria importância. Essas são tristes.

Adoramos curar!

— Vai um chazinho aí?

— Machucou? Vem cá, que vou limpar isso. Vou colocar um curativo.

— Está tristinho? Quer conversar um pouco?

Ser mulher é participar da vida em suas muitas dimensões.

Participamos da vida quando lutamos por igualdade e por justiça. (Mulher odeia injustiças!)

Participamos da vida quando plantamos roçados, cuidamos de jardins, preparamos uma comida, pregamos botões numa camisa, desenvolvemos projetos, participamos de decisões importantes mundo afora, alfabetizamos crianças nas escolas, ensinamos nas universidades, gerenciamos famílias e empresas, governamos nações e amamentamos nossos bebês.

À Caminho do Conhecimento 








Minha irmã tem nove filhos.

Ela corta cana, colhe laranjas, batatas, jabuticabas etc., como tantas outras mulheres, para alimentar a família.

Foto : MST
Aos sábados, vai dançar com as amigas.

Aos domingos, cozinha para os filhos, as noras, os netos e os amigos, que vêm saborear sua deliciosa macarronada de domingo.

Ela cozinha cantando.

Minha amiga também cozinha cantando aos domingos.

Mulher não faz guerra.

Mulher dança, mulher canta...

Eu canto e danço também.

Danço com a vida e para me alegrar.

Foto de M.A.Roque-Kottkamp

Cozinho, limpo, lavo, passo.

E também escrevo.

Fiz um pacto com a Criação: cooperar em alto nível.

Penso que nascer mulher é uma escolha.

E, por ser uma escolha, nem Deus consegue limitá-la.



Lembra da Eva, lá no início da história? A primeira desobediente?

Maravilhosa Iniciativa 

Aquela que pôs abaixo o Paraíso, até hoje lamentado pelos preguiçosos?

Curiosa criatura.

Convencida por aquela maravilhosa serpente, come a maçã e vira tudo de pernas para o ar.

Nunca mais vida mansa!

Nunca mais mesmice!

Depois disso, Deus desiste da ideia de paraíso.

E, não podendo mais abortar o projeto, acha por bem deixar a criatura por sua própria conta.

Sabe de uma coisa?

Penso até que foi a mulher quem criou a si mesma.

E que pode ter sido ela também quem gestou Deus.

Foto do Brasil Escola

Por Maria Aparecida Roque-Kottkamp


17.11.11

Protetor Solar


PROTETOR SOLAR

PRIMEIRAS TENTATIVAS

As primeiras tentativas de desenvolver um protetor solar aconteceram no Egito, há aproximadamente 7.800 a.C.  A substância era composta de extrato de mamona e magnólia.

Há cerca de 400 a.C., na Grécia, sabe-se que também se tentou desenvolver uma fórmula de protetor solar a partir de uma mistura de óleo de oliva e areia.

Já no século XX, em 1928, nos Estados Unidos, foi desenvolvido um produto com mais compostos químicos, à base de salicilato e cinamato de benzila. Em 1944, fizeram uma nova tentativa, dessa vez à base de petróleo.

Mas os primeiros protetores solares eficazes começaram a ser desenvolvidos, de fato, a partir dos anos 1930. De lá para cá, busca-se cada vez mais melhorar a eficácia e a capacidade de proteção desse produto.

FATOR DE PROTEÇÃO SOLAR (FPS) — PARA QUE SERVE?

O Fator de Proteção Solar (FPS) costuma variar de 15 a 60 e, normalmente, a embalagem informa para qual tipo de pele o produto é mais apropriado.

Os fatores mais baixos são, em geral, indicados para peles mais escuras, enquanto os fatores mais altos são rec omendados para peles mais claras.

Como o próprio nome indica, o protetor solar serve para proteger a pele dos efeitos nocivos que os raios ultravioletas podem causar, filtrando parte dessa radiação e reduzindo sua ação sobre a pele.

Os raios ultravioletas tornam-se prejudiciais quando provocam queimaduras, alterações celulares e outros danos que podem contribuir para o surgimento do câncer de pele.

POLÊMICAS

Nos últimos anos, algumas marcas de renome, bastante respeitadas no mercado de cosméticos, têm sido questionadas em relação à eficácia da proteção que prometem nas embalagens.

Algumas dessas marcas foram submetidas a testes em laboratórios considerados confiáveis, e os resultados colocaram em xeque o fator de proteção oferecido por elas. Esses testes, naturalmente, foram contestados pelos fabricantes das mesmas marcas.

O consumidor, por isso, deve ficar atento ao escolher uma marca de protetor solar, para não correr o risco de utilizar um produto que, além de não proteger adequadamente a pele, possa ainda causar outros danos.

QUANDO USAR

Nos horários de maior intensidade dos raios solares, entre 10 e 16 horas, na praia e sempre que houver necessidade de se expor ao sol.

Sempre que possível, também é recomendável utilizar outras formas de proteção, como chapéu, guarda-sol ou sombrinha.

COMO USAR

Aplicar o protetor nas partes do corpo que ficarão expostas ao sol. Se for à praia, recomenda-se aplicá-lo no corpo todo. Se for sair à rua ou realizar algum trabalho ao ar livre por mais de uma hora, deve-se aplicá-lo nas partes não cobertas pela roupa.

O ideal seria consultar um dermatologista para que ele avalie sua pele, indique um protetor solar apropriado e oriente quanto ao seu uso adequado e seguro.

Agora, você está melhor informada/o sobre como e qual tipo de bronzeador usar neste verão.  

Divirta-se com cuidado!


    Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 

17.11.2011


26.5.11

Mulher, essa incompreendida

 

Desde Eva, parece que a mulher carrega uma curiosa condenação: a de ser responsabilizada por coisas que os homens não conseguem — ou não querem — compreender.

Ao longo da história, os homens falaram muito sobre as mulheres. Definiram-nas, explicaram-nas, julgaram-nas, idealizaram-nas e, não raramente, fizeram delas motivo de piada. Discutiam-se política, filosofia, economia e os grandes assuntos de seu tempo — assuntos importantes, haja vista - e piadas de salão, cujo objeto de riso era a mulher. 

Sobre as mulheres, porém, tinham pouco a dizer. Era uma desconhecida. 

E disseram de tudo sobre ela: que falavam demais, que eram perigosas, frágeis, tortas, tentadoras, difíceis de compreender, capazes de destruir paraísos e até de constituir um “erro” divino.

Algumas dessas frases vieram de homens brilhantes que revelam como a maneira como a maioria desses homens de determinadas épocas as enxergavam.

E é justamente por isso que vale a pena revisitá-las.

Não para fazer um julgamento retroativo de todos os seus autores, nem para transformar cada frase em prova definitiva do pensamento de uma época. Mas para observar, com alguma ironia e uma boa dose de espírito crítico, como a mulher foi descrita.   

Acompanhe algumas dessas pérolas.

“Certas mulheres podem falar horas a fio sobre qualquer assunto. A minha mulher nem precisa de assunto.”
— Sam Levenson

Quando eram eles a falar sem parar, chamava-se debate, análise, estratégia, filosofia ou política. Quando era uma mulher, bastava dizer que ela “falava demais”.Talvez o problema nunca tenha sido a quantidade de palavras, mas quem tinha o direito de pronunciá-las.  

“Presume-se que a mulher deve esperar, imóvel, até ser cortejada. Mais ou menos como a aranha espera a mosca.”
— George Bernard Shaw

Ainda bem que muita coisa mudou — embora ainda haja um longo caminho pela frente.

A mulher já não precisa permanecer imóvel, à espera de que alguém a escolha, como se estivesse aguardando o caçador aparecer. Em muitos países, conquistou-se o direito de fazer suas próprias escolhas: escolher se quer, com quem quer e, sobretudo, não querer.

E talvez uma das maiores conquistas seja justamente esta: aprender — e fazer valer — o direito de dizer NÃO.

Não quando não quer.
Não quando não gosta.
Não quando se sente assediada.
Não quando simplesmente não está interessada.

Porque liberdade não é apenas poder escolher. É também poder recusar.

“Estou convencido de que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a sorte é como a mulher; e, para dominá-la, é necessário bater nela e contrariá-la.”
— Nicolau Maquiavel

Sabemos que a violência contra a mulher continua sendo uma realidade brutal em muitas sociedades e que o feminicídio permanece como uma de suas expressões mais extremas. 

Nesta frase, Maquiavel recorre a uma metáfora bastante reveladora de seu tempo: compara a sorte — a fortuna — a uma mulher que, para ser dominada, deveria ser “batida” e contrariada. A violência aparece, portanto, não apenas como uma possibilidade, mas como um instrumento legítimo de domínio. É uma frase antiga, mas a ideia que ela carrega está longe de ser apenas histórica. Durante séculos, a mulher foi colocada no lugar de algo que deveria ser conquistado, submetido e controlado. E talvez seja justamente por isso que certas frases dos grandes autores mereçam ser revisitadas: não para apagar seus autores da história, mas para enxergar, nas palavras que atravessaram os séculos, as ideias que também ajudaram a construir a sociedade em que vivemos.

“É mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela.”
— George, Lord Byron

Pois é...

Talvez seja mesmo mais fácil morrer por uma mulher do que viver com ela. Afinal, morrer por uma mulher permite transformá-la em musa, paixão, mistério ou tragédia. Conviver com ela exige algo bem mais difícil: reconhecê-la como pessoa.

Uma pessoa que pensa, discorda, muda de ideia, tem desejos próprios, defeitos, qualidades e, sobretudo, vontades.

Talvez o problema nunca tenha sido compreender as mulheres. Talvez tenha sido aceitar que elas não existem para caber nas fantasias que os homens criaram sobre elas.

“A mulher será sempre o perigo de todos os paraísos.”
— Paul Claudel

Talvez essa ideia de que a mulher representa um perigo seja muito mais antiga do que imaginamos.

Em algumas partes do mundo, essa visão chega ao extremo de ainda obrigar mulheres a esconder o rosto e o corpo atrás de panos, como se a sua simples existência fosse, por si só, uma ameaça. 

Desde Eva, ela carrega simbolicamente a culpa pela perda do Paraíso. Bastou uma mulher ousar romper com a monotonia, experimentar o desconhecido e tomar uma decisão por conta própria para que sua curiosidade se transformasse, por milênios, em pecado.

Essa figura estranha, como disse Rita Lee, "que todo mês sangra", quando ousa desejar, é tentadora; quando ousa dizer não, é difícil.

E quando ousa ser livre! Então, é ainda mais perigosa. É o diabo encarnado!

O verdadeiro perigo está na maneira persistente e equivocada como ela é vista — uma visão que, há séculos, tem servido para justificar a violência sobre ela mundo afora.

  “A mulher foi o segundo erro de Deus.”

— Friedrich Nietzsche

Nem esse conseguiu entender as mulheres. Também, ocupou-se tanto em viajar pelos próprios pensamentos que talvez não tenha lhe sobrado muito tempo para conhecê-las melhor. Assim, acabou sendo mais fácil reduzi-las a uma pequena — e infeliz — frase.

Alguém sabe qual teria sido o primeiro erro de Deus?

Será que foi o homem?

E, para finalizar nossa pequena viagem no tempo, na tentativa de sondar algumas das falas de pensadores sobre as mulheres, registradas em suas obras, vamos à última frase: 

“Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham, pois, paciência com as mulheres.”
— Maomé

Essa é quase um elogio, se comparada às anteriores. 

Talvez, entre tantas frases que tentaram explicar, diminuir ou ridicularizar a mulher, esta tenha ao menos uma pequena dose de bom senso: aceitem-nas como são e tenham paciência.

Convenhamos: depois de tantos séculos tentando entendê-las, já seria um bom começo.

Talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente em compreender que uma mulher não é um osso torto, nem algo que precise ser moldado à vontade de alguém.

Para nossa conclusão, vai a pergunta: Afinal, quem é essa mulher?

Aqui, expusemos apenas algumas frases de pensadores do passado. Mas, se perscrutarmos os escritos e as falas de filósofos, escritores, pensadores e homens comuns — frequentadores assíduos dos salões de outrora — em busca do que pensavam sobre as mulheres, talvez a conclusão mais óbvia seja também a mais simples: eles falaram muito sobre elas, mas nem sempre falaram com elas.

Transformaram-nas em musa, pecado, tentação, perigo, mistério, prêmio, desgraça, costela torta e até erro de Deus. Criaram explicações para seus comportamentos, justificativas para seus desejos e regras para seus corpos. Disseram como deveriam falar, amar, vestir-se, comportar-se e até o quanto e quando deveriam falar.

Mas quase sempre esqueceram de uma coisa elementar: perguntar a elas quem eram.

Talvez a mulher não seja tão incompreendida porque seja difícil de compreender. Talvez tenha sido incompreendida porque, durante muito tempo, não lhe deram espaço suficiente para contar a própria história.

E é justamente aí que esta pequena viagem pelas frases de tantos homens termina.

O intuito dessa pequena investigação não é o de condenar todos os homens, nem para negar a importância de grandes autores por causa de uma frase infeliz. Mas para lembrar que inteligência, genialidade e reconhecimento histórico não tornam ninguém imune aos preconceitos de seu próprio tempo.

As frases permanecem. E nós podemos visitá-las.

Podemos rir de algumas, indignar-nos com outras, questioná-las e, sobretudo, perceber o quanto uma sociedade revela de si mesma quando fala sobre aqueles que colocou em posição de inferioridade.

Durante séculos, disseram às mulheres quem elas deveriam ser.

Talvez tenha chegado a hora de simplesmente deixá-las ser.

Nem musa. Nem pecado. Nem perigo. Nem costela. Nem erro.

Simplesmente Mulher.

Texto escrito em 2011 e revisado em 11.08.2026

   
 Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 



5.4.11

Abril

Abril, abril... 

Estamos começando o mês de abril.

Ou será o mês de abril que está começando?

Estamos começando em abril. Começando... Começando o quê?

Por minha vez, estou começando a escrever este texto, que, por acaso, está acontecendo no mês de abril.

„April, April, der macht, was er will.“

Dizem os alemães. Traduzindo mais ou menos: em abril pode nevar, chover, fazer sol, ventar... O mês de abril faz o que quer. Tudo pode acontecer neste mês.

Mas o que poderá nos proporcionar um mês?

Este mês?

Na verdade, um mês é só uma palavra.

Se eu ler “mês” ao contrário, vira “sêm”.

Abril, escrito ao contrário, vira “lirba”.

“Sêm” e “lirba” não significam nada. Procurei no dicionário e não encontrei nada — a não ser nomes de empresas e de pessoas que, para mim, não dizem absolutamente nada.

Veja só: quando escrevo uma palavra ao contrário, posso dessignificá-la. Posso acabar com a sua graça. Ela passa a ser apenas um amontoado de letrinhas deficientes. Perde a voz, perde o sentido.

É o que acontece comigo diante de “sêm” e “lirba”: sem sentido.

Mas, se continuarmos brincando com as letras — isso se chama anagrama —, “abril” pode também virar “lirba”.

Não quero, porém, seguir nessa direção.

“Lirba” lembra “libra”, que lembra balança, que lembra justiça, que lembra dinheiro, que lembra poder, submissão, corrupção, prostituição, caução...

Tudo com significados pesados demais e estressantes para mim.

Então, voltando ao tema em questão, pergunto:

O que reserva para nós este sêm? Este lirba?

Pensei bem sobre isso e tomei uma decisão:

Não quero ter parte alguma com os acontecimentos deste mês.

Vou desligar a TV, o rádio, o telefone e a internet.

Ih... esqueci-me do celular.

Vou desligá-lo também!

Não me telefonem!

Quero me alienar. Quero me esconder. Quero dormir por alguns dias. Dormir no sêm de lirba, no sêm da mentira, no sêm sem significado, e só acordar em “oiam”.

Repito:

Não quero ter nada a ver com este sêm.

Tsunamis, terremotos, vazamentos nucleares, terríveis assassinatos, novas guerras...

Que exploda o mundo!

Quero estar dormindo!

Quero dormir...

Dormir...

E dormir ainda mais.

Quero estar nem aí. Não quero ter ligação alguma com nada nem com alguém.

E o que acontecer com Ioko, Hans, Muhamad, John não vai me afetar. Onde quer que estejam, suas tristezas, seus dramas, suas tragédias e suas perdas não serão imagens nem vozes para mim.

Porque estarei dormindo.

Dormindo no sêm de lirba.

No sêm da mentira.

No sêm sem significado.

Vou desligar todos os fios. Vou me desconectar do mundo.

Vou fazer isso pela minha saúde mental.

O sêm de março é o culpado.

Foi turbulento, atrevido, estressou meio mundo e foi embora sem olhar para trás.

E eu também vou.

Se ele pode, eu também posso.

Então, vou terminar logo com este blá-blá-blá, que já está ficando chato, vou-me.

Só volto no sêm de maio.

Ops!

Oiam.

sêm das noivas.

Sêm da abolição.

Sêm do trabalho.

Sêm dos acontecimentos bons.

Agora, fui mesmo!

Bizzz...

FIM

Divulgado em 05.04.2011 e revisado em 13.08.2026.

    Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 




24.3.11

A Criatura Humana e seus Atos


A CRIATURA HUMANA E SEUS ATOS

O ser humano acha que só porque pode pensar é mais importante do que qualquer outro animal. Ele se esquece de que, principalmente porque pode pensar, é também mais responsável por tudo o que faz.

Desenvolvemos o pensamento e conquistamos o livre-arbítrio; podemos escolher os caminhos que queremos seguir, construímos ferramentas e, com elas, fazemos nossas casas, nosso mundo, escrevemos leis que nos mostram alguns limites e seguimos uma certa ética.

Entretanto, ainda estamos vulneráveis perante muitas catástrofes naturais.

Assim como os dinossauros, também podemos ser varridos do planeta por elas.

Contra tsunamis e terremotos, o homem nada pode fazer. Não adianta gritar nem rezar para que os deuses nos socorram; eles não vão fazer nada por nós. Vemo-nos, então, sozinhos, como o homem primitivo o fora, ou como qualquer outro animalzinho desprotegido!

Mas esse homem de quem falo, esse sábio privilegiado da natureza, cocriador, por sua vez, também foi o causador de catástrofes ainda tão ou mais devastadoras do que os tsunamis e terremotos. Esse homem vem praticando atrocidades contra seus semelhantes e contra a natureza há milênios, mundo afora. Seus feitos interferiram no clima, arrasaram matas, alteraram o solo e aniquilaram pessoas.

E, para piorar ainda mais a situação, como líder político, a maioria foi — e é — inescrupulosa, egoísta, imediatista e mal-intencionada. Alguns desses homens vêm decidindo e conduzindo o nosso destino ao longo da história da humanidade.

Por tudo o que já sabemos, pergunto: que mundo queremos deixar para nossos filhos e netos? Vamos continuar com a nossa vidinha, pensando que ainda não é conosco, que nunca seremos afetados, e deixar que certos tipos continuem a conduzir nossos destinos para o abismo?

Há muito se sabe que são grandes as possibilidades de haver uma catástrofe nuclear por erro, falha técnica — que já ocorreu na Rússia e no Japão —, por ataques terroristas ou por ato de qualquer louco. E, mesmo assim, agimos minimamente para banir as usinas do planeta.

Desde o início de suas construções, discutem-se, nos fóruns internacionais, os riscos que representam para a humanidade. Mas, mesmo assim, não se consegue fazer com que parem definitivamente. E o programa para a construção de novas unidades continua.

Os representantes das nações líderes, com sua parola, conseguem sempre convencer os que votam as leis, apoiados na necessidade que essa fonte de energia representa para a população desses países, para manter patamares econômicos e continuar crescendo. Somos, então, mais uma vez, obrigados a engolir isto e vamos levando nossa vida com a nítida sensação de que estamos caminhando sobre uma linha tênue que, a todo momento, pode ceder.

Já ciente desses perigos, esse ser especial chamado homem, com inteligência superior à de outros animais, insiste na prática de seus absurdos, fazendo do mundo seu laboratório particular.

Será que ele ainda merece estar no topo, ocupando o lugar de ser especial da natureza só porque conseguiu se apoiar nas duas pernas, descobriu o fogo, desenvolveu o pensamento contínuo, construiu a Torre de Babel, as Muralhas da China, aviões, foguetes, computadores...?

Precisamos avaliar melhor essa posição; encarar a nossa pequenez diante de toda a natureza e do infinito que nos cercam antes de nos colocarmos acima de outros seres só porque pensamos.

Talvez devêssemos buscar em nossos arquivos biológicos nossa natureza animal, tão esquecida; sermos menos humanos; conectarmo-nos com a natureza à nossa volta, tão negligenciada e desrespeitada. Reconhecer nossa limitação e tentar avançar com menos velocidade e sem arrogância no desconhecido. Talvez isso possa nos salvar de nós mesmos.

Será que ainda teremos esse tempo?

Postado em 24.03.2011 / Corrigido e atualizado em 24.08.2026

    Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 


30.1.11

"A Meta é Viver Tudo"

Viver tudo

Muitos reclamam de não ver sentido nenhum na vida. Não conseguem encontrar alegria nem graça em nada. Tudo parece inútil. Não sabem por que nasceram nem o que vieram fazer aqui.

Fazem muitas perguntas e querem respostas prontas. Querem também soluções fáceis, se possível, sem fazer muito esforço para encontrá-las.

Querem uma vida cor-de-rosa, e ela aparece, muitas vezes, em preto e branco.

Desejam a felicidade e não incluem a tristeza; desejam o sucesso e não contam com o fracasso; querem ganhar muito e não querem dar nada.

Se desejamos viver plenamente nossas vidas e torná-las mais ricas de sentido, temos que incluir tudo: seu lado de luz e seu lado escuro.

Temos que aceitar a sua feiura se quisermos descobrir a sua beleza. Não incluir todos os lados da vida torna-a pobre e com pouco sentido mesmo.

Se ela está desagradável do jeito que se apresenta, temos que torná-la possível, encontrar nela algum prazer e alguma felicidade.

Precisamos aceitar os desafios e não perder tempo com grandes questionamentos. Contribuir com os talentos que cada um possui, utilizando os inúmeros recursos disponíveis à nossa volta, pode trazer mais alegria para nossa existência e o sentido que estamos procurando.

Querer fugir da responsabilidade de tornar a vida melhor para nós e, consequentemente, para os demais à nossa volta, significa rebeldia e fraqueza de caráter.

Tentar enxergar a vida não como uma luta deveria ser um exercício constante para nós, pois é através dos desafios e das novidades que podemos aprimorar nossas capacidades, tornar-nos pessoas melhores e, certamente, mais contentes.

Podemos estar, muitas vezes, em dúvida entre ser ou não ser, fazer ou não fazer, mudar ou não mudar, ir ou ficar. Tudo isso faz parte do processo de autoconhecimento. Com o tempo, em consequência do exercício das tentativas, vamos conquistando mais segurança e discernimento. Vamos poder fazer nossas escolhas com mais lucidez e enfrentar os riscos com mais coragem, pois já sabemos que o caminho para uma maior maturidade consciencial é assim mesmo.

O importante é aprender a ver toda a riqueza de opções à nossa volta e saber que a nós cabem as escolhas.

Arriscar-se a expor-se mais ao mundo, libertar-se de limitações e comprometer-se com algo de real importância pode trazer ótimos resultados e mais ânimo para viver.

Tudo na natureza tem um porquê para existir e, ao ser humano, como parte dessa natureza, não é diferente. Conscientes ou não disso, participamos da dinâmica existencial. Somos obrigados, por muitas circunstâncias, a todo instante, a nos movimentar, a promover ações das mais variadas.

Consequentemente, vamos ter contato com medos, tristezas e inseguranças, mas também com coragem, alegrias, flexibilidade e prazer... Isso favorece a melhoria de nosso condicionamento físico, mental e psíquico e nos faz mais inteligentes também.

E porque a vida é assim — adversidade, diversidade e infinita —, e porque somos condenados a viver eternamente, felizes ou não, querendo ou não, é que essa “autoentrega e essa confiança em Algo ou em Alguém” (Carl G.Jung) — também não sei quem é, nem quero dar nome a isso — são tão importantes para a nossa saúde psíquica.

“Não sei Quem, ou o Quê, fez a pergunta. Não sei quando a fizeram. Nem mesmo me lembro de tê-la respondido. Mas em algum momento eu disse Sim a Alguém, ou Algo, e dessa hora em diante tive a certeza de que a existência era significativa e, portanto, minha vida possuía, na autoentrega, um objetivo.”

Citado em A Gnose de Jung e os Sete Sermões aos Mortos, de Stephan Hoeller, Cultrix, São Paulo, 1995, p. 168.

Para complementar e concluir esta pequena reflexão, cito também um pensamento de Rainer Maria Rilke:

“Não procure a resposta que não lhe pode ser dada, pois você não seria capaz de vivê-la. E a meta é viver tudo. Viva as questões agora. Quem sabe? Gradualmente, sem perceber, você pode viver as respostas em um dia longínquo.”

Talvez seja justamente isso: não precisamos ter todas as respostas para começar a viver. Talvez algumas respostas só possam ser encontradas depois de termos vivido as perguntas.

Por Maria A. Roque-Kottkamp
30.01.2011

18.1.11



Foto de Família

O chão, o verde e muita luz.

Alguns de pé, outros sentados sob os galhos da goiabeira, que aureolam as carinhas contentes.

Trajam roupas simples, coloridas, de domingo.
Estão ali para um acontecimento.

O cachorro amigo também se faz presente: é quase uma necessidade.

A peça vai se formando espontaneamente.

Sobre o solo rústico, são acarinhados pelos ramos verdes e pelos raios do sol brasileiro.

Distraídos... distraída...

Como e quando começou tudo isso que agora vejo?

Não sei.

Mas não importa.

O que conta é o ajuntamento.
É o amor, a alegria
e a afinidade que une e faz o momento.

Olho a cena e ainda pergunto:

— No que estão pensando agora?

Talvez, como o solo, o verde e a luz que estão presentes,
queiram simplesmente estar ali
e não precisem pensar em nada.

Alguns estão ausentes:
uns por opção; outros, não.

— Ei, atenção! Todos a postos! Sorriam!

Parecem contentes, até felizes.

E assim, esse instante mágico se eterniza
numa foto de família.


            Maria Aparecida Roque-Kottkamp

 Rabiscadora livre do cotidiano — sobretudo 

18.01.2011


 

18.12.10

Meu pensar: uma metamorfose



 "Era uma vez
Um sábio chinês
Que um dia sonhou
Que era uma borboleta
Voando nos campos
Pousando nas flores
Vivendo assim
Um lindo sonho...
Até que um dia acordou
E pro resto da vida
Uma dúvida
Lhe acompanhou...
Se ele era
Um sábio chinês
Que sonhou
Que era uma borboleta
Ou se era uma borboleta
 sonhando que era
Um sábio chinês." 

Esse homem teve um lindo sonho, quase o contrário de Gregor Samsa, personagem de A Metamorfose, de Franz Kafka.

Gregor Samsa acorda um dia transformado em um inseto. Mas sua metamorfose talvez tenha começado muito antes. Pressionado por todos e por todos os lados, pelos desafios e exigências da vida, pouco a pouco vai se diminuindo, perdendo espaço, liberdade e, talvez, até a própria condição humana.

Fechado num quarto, exila-se de tudo e de todos. Afastado do mundo e das pessoas, vai se tornando cada vez mais estranho aos outros — e talvez também a si mesmo. Pouco a pouco, transforma-se num inseto horripilante.

Já o sábio chinês vive uma metamorfose de outra natureza. Ele sonha que é uma borboleta, livre, voando pelos campos, pousando nas flores. Quando acorda, porém, a experiência do sonho lhe deixa uma dúvida que o acompanhará pelo resto da vida: afinal, quem era ele? Um sábio que sonhou ser uma borboleta ou uma borboleta sonhando ser um sábio?

Dois homens. Duas metamorfoses. Dois modos muito diferentes de enxergar o mundo e de sentir a vida.

Em Gregor Samsa, a metamorfose parece representar um encolhimento do ser. É como se a vida, quando se torna pesada demais, pudesse nos fechar dentro de nós mesmos, até que já não nos reconheçamos.

No sonho do sábio, porém, a metamorfose abre uma porta. Ela não diminui: amplia. Faz surgir uma dúvida, mas uma dúvida bonita — dessas que talvez não precisem de resposta. Afinal, quem somos nós? Aquilo que acreditamos ser quando estamos acordados? Aquilo que sonhamos? Ou algo muito maior e mais misterioso, sempre em transformação?

Talvez seja justamente essa a grande diferença entre os dois: Gregor se transforma e perde a liberdade; o sábio se transforma e descobre a possibilidade de ser outra coisa.

E talvez nós também sejamos assim: ora Samsa, quando a vida nos aperta e nos fechamos; ora borboleta, quando conseguimos sair de nós mesmos, ganhar asas e olhar o mundo de outro modo.


Maria A. Roque-Kottkamp